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quinta-feira

É possível entender Nietzsche?


Friedrich Wilhelm Nietzsche é um dos poucos filósofos cujo nome não invoca opções doutrinárias e atitudes intelectuais. Ao contrário. Evoca um estilo de pensar e uma prática de vida. O nietzschismo não é apenas um tema ou uma tese de refregas acadêmicas entre historiadores das ideias como aconteceu no kantismo. Não houve uma escola nietzschiana propriamente dita. Muitas vezes, porém, a sua obra é uma referência polêmica para artistas, literatos, políticos e filósofos. Mais de uma vez, em épocas de inquietação e desassossego, o nietzschismo há de surgir como uma palavra de ordem provocativa ou escarnecível, arrebatadora ou repulsiva. Mais: até mesmo um apelo a sublevar e derruir a tradição moral de berço platônico, inclusive a civilização ocidental e cristã.

Por certo, Nietzsche não é um monstro sagrado. Mas também não é um pensador ignoto. Longe disso. Os intelectuais, mesmo os que dele discordam, respeitam o seu pensamento. Assim falou Zaratustra - talvez o seu livro mais lido! - cuja primeira parte escrita em dez dias foi redigida em Rapello, nas proximidades de Gênova, em 1883; a segunda, após a morte de Wagner; a terceira, na França, em março de 1884; e a quarta e última, em Nice, em abril do mesmo ano, encanta qualquer público.

Zaratustra, escreve, tem eterno direito a dizer "eu traço círculos e fronteiras sagradas em torno de mim: sempre mais raros são os que comigo sobem montanhas sempre mais altas - eu construo um maciço de montanhas sempre mais sagradas". E adita: "Somem-se o espírito e a bondade de todas as grandes almas em uma: todas juntas não seriam capazes de produzir uma fala de Zaratustra. Tremenda é a escala em que ele se move; ele viu mais longe, quis mais longe e pôde mais longe que qualquer homem. Ele contradiz com cada palavra, esse mais afirmativo dos espíritos; nele todos os opostos se fundem numa nova unidade". E acrescenta: "Não há sabedoria, pesquisa da alma ou arte do discurso antes de Zaratustra: o mais imediato, o mais cotidiano fala das coisas inauditas ali". E ainda falando sobre o seu Zaratustra, assim se expressa: "Com Zaratustra fiz à humanidade o maior presente que até agora lhe foi feito. Não é só o livro mais elevado que existe, autêntico livro do ar das alturas; é o mais profundo, o nascido da mais oculta riqueza da verdade, poço inesgotável onde balde nenhum desce sem que volte repleto de ouro e bondade". E nele escreve: "Os figos caem das árvores, são bons e doces: e ao caírem rasga-se sua pele rubra. Um vento do norte soa para os figos maduros. Assim como os figos vos caem ensinamentos, meus amigos: bebei seu sumo e sua doce polpa! É outono em torno e puro céu e tarde". Mas logo Nietzsche se rebela e exclama indignado: "Afastai-vos de mim e defendei-vos contra Zaratustra! Melhor: envergonhai-vos dele! Talvez ele vos tenha enganado!".

Entender Nietzsche, filósofo, caro leitor, é vencer dificuldades que, decerto, nenhuma outra obra filosófica apresentou ou apresentará. Em seus textos não se deve jamais buscar uma filosofia do sentido da história. Nietzsche permanece no terreno de uma "psicologia", de uma antropologia que assevera como "natural" a busca universal da felicidade, e não pode admitir na ordem da natureza nenhuma exceção para o homem, "ser vivo entre os seres vivos". O próprio Kant não pôde superar uma moral da felicidade a não ser invocando um estranho "fato da razão" de ordem transcendental. Pois bem. O que Nietzsche descobre na vontade de poder não é uma paixão entre outras, por importantes que sejam, mas só ela explica toda outra paixão, todo outro desejo, toda outra vontade que não é, em última análise, senão uma manifestação fraca, a única noção de "vontade" cuja extensão pode desenvolver-se da mais simples planta ao animal mais complexo, da "ameba ao homem", sem perder-se no vazio de uma vontade em si sem objeto. Destarte, ela "comanda" toda a psicologia que se torna ela mesma teoria da vontade de poder.

Nos bancos universitários e, mais tarde, já professor da UFPel, mantive, juntamente com meus alunos, inesquecíveis encontros com Nietzsche. Agora, na aposentadoria, dedicado à literatura e às minhas óperas, acabo de manusear com nostalgia, mas com o espírito em alerta, as páginas amarelecidas pelo tempo de uma obra magnífica: Ecce Homo.

Nela, escrita em 1888 - enquanto o Brasil liberta os seus escravos! - Nietzsche se questiona se suas obras podem ser facilmente lidas. Ou melhor: entendidas por seus contemporâneos. "Por que escrevo livros tão bons?", se pergunta. "Uma coisa sou eu, outra são meus escritos". Por Deus! Ecce Homo é uma das mais belas e instigantes obras da língua alemã; o livro mais singular jamais escrito por um pensador. Nele, o autor faz um balanço da sua vida. Mas não é mera autobiografia. É confissão. É interpretação. É uma síntese de seu pensar. De seus temores. De seus conflitos. Um grande pensador - talvez um dos mais influentes da sua época! - Nietzsche fala de suas influências. De sua paixão. De como pariram seus textos. De seu modo de vida. De suas aflições. De seus objetivos. Nele - totalmente desnudo! - faz um original intróito de si mesmo.

Mais de um século após a sua morte - ele morreu em 1900 - após tantas discussões, depois de tantos empenhos interpretativos, após análises eruditas, o que se poderá fazer para que a particular inaturalidade de sua obra seja enfim, ao homem, inteligível? É a pergunta que deixo ao caro leitor, neste domingo outonal. Mas assim é Nietzsche. E como é bom reencontrá-lo!

sábado

Mais decência para docência



A Lei do Piso Nacional do Magistério, além de ter criado um padrão para uniformização e melhora dos salários dos professores do país, trouxe importante alteração (que não está recebendo a devida atenção) em relação à limitação da carga horária para o trabalho direto com os educandos.

Para tanto, a Lei do Piso limitou a jornada de trabalho do professor para 2/3 do total das horas trabalhadas em sala de aula e o terço restante, reservou para preparação e elaboração de aulas e para a formação do docente.

O que busca a Lei do Piso, com esta inovação, é proporcionar ao professor espaço necessário e de qualidade para complementação da sua formação. Somente assim, com a redução da carga horária, haverá oportunidade para que o professor possa se aperfeiçoar e enfrentar as rápidas mudanças que o ensino atual exige.

A reorganização da estrutura pedagógica do ensino público passa por alguns fatores determinantes, dentre os quais podemos destacar: o aperfeiçoamento dos educadores e o seu maior envolvimento com a comunidade escolar, pontos essenciais na busca de uma educação com qualidade. A modernização do ensino, acompanhando as necessidades atuais, deve ser buscada permanentemente e isso somente será possível se o professor tiver tempo para planejar suas atividades.

A Lei do Piso é muito mais abrangente do que, simplesmente, o aumento de salário que vem sendo discutido entre os professores e os governantes. Esta lei inovadora deu aos docentes, também, oportunidade para avanço na sua formação profissional, entregando-lhes tempo para que se aperfeiçoem pedagogicamente e envolvam-se com o meio estudantil.

Resta saber se os nossos governantes, que discutem o índice de correção do Piso Nacional do Magistério, cumprirão a redução da carga horária que todos os professores têm direito.

segunda-feira

Projeto político pedagógico nas escolas: realidade ou discurso?


Os projetos políticos pedagógicos há pouco tempo atrás tinham se tornado o grande objeto de discussão nos meios educacionais. A obrigatoriedade destes projetos ficou mais clara a partir da Lei de Diretrizes e Bases da educação nacional (LDB 9394/96). A questão que se coloca é, em que sentido as escolas vem desenvolvendo seus projetos políticos pedagógicos? Será realidade ou mera retórica discursiva para dar substância formal o não cumprimento de uma norma legal?

Uma instituição com fins formativos como a escola deve ser capaz de fornecer respostas contextualizadas tendo como base e meio o seu cunho pedagógico. Hoje a civilização pós-moderna/globalizada do trabalho pós-fordista/flexível, necessita de uma compreensão que resultará numa resposta que sempre refletirá uma visão de mundo, de sociedade, de cidadão para atuar nesta sociedade, da maneira como trabalhamos o conhecimento, bem como o viés político do espaço educacional que a elaborou.

 A educação cuja essência é desenvolver nos indivíduos potencialidades que os mobilizem como cidadãos críticos e autônomos deve ser construída em uma relação teoria-prática que realmente provoque resultados proativos e agregadores. Não existe conhecimento sem planejamento, assim como não existe educação de qualidade e contextualizada sem um projeto com objetivos bem definidos.

Os olhares das escolas de ensino fundamental e médio (particulares e/ou públicas) devem novamente voltar-se a seus projetos educacionais (discutir/rediscutir) esta é uma boa oportunidade de ressignificá-los como uma ferramenta preciosa que deve ser pensada no conjunto de uma intima relação entre família, escola e comunidade.

O sucesso ou não destes projetos na prática está atrelado, em grande parte, aquilo que os mesmos expressam. Serão eles efetivamente expressão de uma realidade concreta, ou metafísica? Além de responderem para onde a educação deve conduzir (analisando o quê, como, para quem e para quê ensinar), apresentam recursos políticos, econômicos, técnicos e humanos qualificados para concretizar esta resposta?

A direção e os professores estão cientes da necessidade de um projeto de educação antes de ser instrumental e burocrático deve ser um compromisso de gestão? A comunidade e a família têm um papel fundamental nesta discussão cabendo a escola promover a dinamicidade necessária para sua aplicabilidade e participação.

Neste momento em que nossas escolas se vêem em uma encruzilhada sem rumo definido para implantar o ensino técnico-profissionalizante, este conjunto de questões busca provocar ou revigorar que a construção/prática de um projeto pedagógico crítico-produtivo exige o domínio de conhecimentos disciplinares e culturais, pedagógicos, didáticos e práticas interdisciplinares como metodologia e não somente a técnica como forma restrita do saber.

Construir políticas pedagógicas é um trabalho complexo que envolve tempo e comprometimento, porém, não pode ser negligenciado/engavetado ou imposto, mas sim debatido e publicizado para que todos tomem parte de suas responsabilidades deixando de lado o engodo e a falácia que tanto prejudicam e concorrem para o imobilismo da educação brasileira.

A construção de matrizes curriculares não pode ser iniciada sem que todos estes aspectos estejam claros e sejam de domínio dos atores envolvidos, pois do contrário teremos ótimas intenções escritas e documentadas, contudo as caixas-pretas (salas de aula) continuarão pouco estimulantes e deslocadas da realidade do aluno, persistindo a escola como um continuo refúgio e depósito de cérebros alienados reféns de um sistema ineficiente e indiferente ao agir e ao pensar criticamente.

quarta-feira

O conteúdo no centro das atenções


Os conteúdos escolares, resultantes dos saberes e conhecimentos científicos construídos ao longo da história, constituem uma das ferramentas do processo de ensino/aprendizagem.

No passado (décadas de 50 a 70), houve padronização destes conteúdos, proposta e controlada pelos Estados da federação. Hoje, a legislação não apresenta uma listagem oficial, muito embora, algumas mantenedoras ainda o façam para orientar seus sistemas de ensino. A Lei Federal apenas orienta a organização do
currículo e seus conteúdos, definindo a obrigatoriedade das quatro áreas do conhecimento, mas não impõem limites. Ao contrário, permite que os sistemas e as escolas decidam sobre o currículo escolar e seus conteúdos, levando-se em conta os Parâmetros Curriculares Nacionais.

A liberdade conferida pela Lei 9394/96 provocou forte impacto nos sistemas de ensino, provocando debate e posicionamento sobre a necessidade e relevância dos conteúdos escolares. Neste embate, os conteúdos passaram a ser previamente selecionados pelas editoras, que seguem orientações emanadas do PNLD/MEC e, posteriormente, reorganizados em função do tempo escolar, na montagem dos planos didáticos, representando uma redução no volume do conhecimento disponível aos estudantes.

Compreendendo os conteúdos escolares como uma parte do conhecimento humano e sistematizado em formato acessível ao estudante, devemos focá-los como elementos provocativos da aprendizagem, pois os conteúdos não são “fim”, mas “meio”. São parte das ferramentas de construção ou reconstrução dos sujeitos que aprendem. Não podem, portanto, ocupar o centro do processo ensino/aprendizagem, longe da crítica e da reflexão que devem suscitar, pois, ao contrário, retiram dos sujeitos o seu protagonismo. Desta forma, a aprendizagem, expropriada de
identidade, passa a ser mero treino e repetição.

Um currículo crítico e dinâmico deve atribuir significado aos conteúdos escolares. Sua definição/escolha nos planos pedagógicos devem ter nitidez frente aos objetivos da instituição de ensino e aos conhecimentos a serem produzidos pelos estudantes. Abdicar do significado (para que servem estes conteúdos) inibe o potencial dos estudantes e torna enfadonha a aprendizagem.

A escola deve compreender o mundo atual para dialogar com esta geração. O mundo tecnológico apresenta uma linguagem dinâmica que se adapta e se refaz, permanentemente. A internet encolheu as distâncias, tornou instantâneas as comunicações e reuniu todas as informações e conhecimentos disponíveis em poucos cliques. O “conteúdo” desejado se revela em diferentes formatos, como texto, vídeo, áudio ou de forma combinada, o chamado hipertexto, apropriado para leitura rápida ou para algumas horas de estudo e de acordo com o desejo e a necessidade do interessado. Neste novo formato de aprendizagem, o conteúdo tem significado por nascer do interesse do estudante e não da proposta do professor.

O problema, então, não são os conteúdos, mas o enfoque que assumem na proposta pedagógica. Ou tomam o seu centro, trabalhados e cobrados como fim em si mesmos, ou mediatizam a compreensão do mundo real, tecendo uma teia de relações e significados de forma dinâmica e interdisciplinar (interativa).

Esta última é a perspectiva que embasa a Reestruturação Curricular, em curso, proposta pela Secretaria Estadual de Educação do Estado do Rio Grande do Sul.

 Profª Neila Gonçalves Silva.
Coordenadora Regional de Educação da 18ª CRE

quinta-feira

Encontramos o que procuramos


Durante minha passagem nesta terra tenho observado que sempre encontramos o que procuramos. Mas, somente aquilo que está em nosso inconsciente. Podemos dizer aos quatro ventos que queremos conquistar alguém (homem ou mulher), ou algo (emprego, posição, carro, etc.), mas se nosso inconsciente nos faz agir de uma maneira contrária ao que estamos dizendo o que prevalecerá serão nossos atos. Muitas vezes queremos educar nossos filhos e acreditamos piamente que isso é o que estamos fazendo, mas o resultado é o contrário. Provavelmente confundimos educar com sobre proteção. Ante um problema dizemos que desejamos resolvê-lo, porém o único que fazemos é justificar que não somos responsáveis do que o provocou.

Há pessoas que vivem com problemas toda a vida e nunca encontram uma solução para eles. Todos têm problemas que parecem de estimação, e de certa forma cuidam deles porque são eles que nos fazem sentir vivos. São os calos que a vida vai formando nas nossas almas e espíritos. Esses calos permitem que suportemos outras situações sem que nos incomodem. São as durezas e crostas que se vão formando em volta de nosso ser que alguns chamam de experiência ou maturidade.

Também tenho conhecido pessoas que ficaram estacionadas num ponto das suas vidas, sempre olhando para esse momento determinado esquecendo-se de viver o momento presente, e quando percebem a vida já passou. São essas pessoas que possuem verdades absolutas, que passam perto da gente dizendo: Sou assim, não mudarei e quem quer ficar perto de mim tem que aceitar-me assim, senão que caia fora! O engraçado é que estão convencidas que a única verdade imutável é o que elas pregam.

Tenho amigos que acreditam que todos os seres humanos são bons, e que no fundo todos têm boas intenções. Em função desta crença sofrem muito quando a vida lhes demonstra que há boas e más pessoas, que o mundo não é a imagem e semelhança deles, mas da natureza do ser humano. Outros não acreditam nem neles mesmos, pensam que todos tentam enganar a todos e que a maldade impera e se alastra por todos os cantos. Por isso quando recebem um ato de bondade ficam desorientados e ficam procurando o que de ruim há atrás dessa boa ação. A verdade é que no mundo real convivem o mal e o bem, como nos corações de todos os homens.

A luta é contínua, não sei se termina depois que nosso tempo na terra acaba,
mas caso continue estou ansioso para ver quem vence, o crédulo ou o incrédulo. Tenho minha preferência pessoal e vivo de acordo a isso.

E você meu caro amigo amigo?

Boa reflexão.

Por: Ricardo Irigoyen.


 

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Prioridades na Educação do Rio Grande do Sul



Dados estatísticos apontam para deficiências no ensino no RS, revelando que a universalização do acesso à escola não é suficiente para garantir o sucesso escolar dos estudantes. A voz uníssona da sociedade clama por mudanças necessárias ao desenvolvimento dos estudantes para sua adequada formação.

Nesse sentido, dois aspectos merecem reflexão: o status atribuído ao professor, principalmente aquele da educação infantil e dos anos iniciais do ensino fundamental, e a remuneração desses docentes.

Em relação ao primeiro aspecto, cabe lembrar que os jovens não querem ser professores, razão pela qual cursos de pedagogia e licenciatura estão sendo fechados. Quanto à remuneração dos professores nessas etapas, constata-se que ela é, no caso das instituições privadas, 100% inferior à remuneração dos docentes do ensino superior. Para trabalhar na educação infantil e nos iniciais, em geral, os professores são recém-saídos do curso normal ou de cursos superiores, com destaque para aqueles que fazem cursos a distância, mais rápidos e baratos, mas que impedem o contato presencial com seus professores, tão importante para a construção de paradigmas no seu futuro trabalho.

Os docentes dessas crianças precisam ser mais qualificados e valorizados, já que nessa faixa etária forma-se o caráter, a personalidade e há maior receptividade à intervenção pedagógica do professor.

Há uma inversão de prioridades: os professores que são mais exigidos porque trabalham com indivíduos em formação são os mais desvalorizados social e financeiramente e os mais qualificados optam pela educação superior onde encontram mais status social e melhor remuneração.

Outro aspecto merece destaque: a necessidade de que as universidades atendam as reais demandas na formação de professores. Os futuros docentes precisam ter uma formação que tenha real importância na vida dos estudantes e que venha ao encontro de um ensino que dialogue com as diferentes áreas do conhecimento, sem que elas sejam fragmentadas, separadas por componentes curriculares.

A solução dos graves problemas da educação passa pelas mantenedoras que precisam oferecer aos docentes condições adequadas de trabalho, planejar atividades de formação continuada e redimensionar a paridade em relação ao status social e remuneração dos professores da educação básica.


sábado

A tecnologia com os pés no chão



Em um contexto de transformações tão intensas, ficam no ar algumas grandes tendências que permeiam a educação neste ano. O que irá acontecer? Quais são os temas que mobilizarão a atenção dos educadores? Com uma enorme margem de incertezas, podemos tentar traçar alguns caminhos, que funcionam como sinalizadores do que vem ocorrendo.
Certamente, a tecnologia será um deles. Alguém pode dizer: “Que novidade!”, mas, em certo sentido, realmente há algo de novo. Depois de muito tempo de um evidente descompasso entre tecnologias que avançam, desconectadas das necessidades reais dos professores e de escolas que resistem cegamente a mudanças, há um movimento concreto de aproximação.

A tecnologia coloca os pés no chão, com respostas mais diretas aos problemas reais da educação. Ao mesmo tempo, a difusão de tablets e smartphones acaba por impor às escolas uma nova adaptação aos recursos existentes. Vivemos essa realidade no nosso sistema de ensino, que criou plataformas de educação digital, as quais são, agora, avidamente procuradas e usadas por nossos parceiros. Sim, há novidades, e precisamos estar de olhos e ouvidos bem abertos.

No entanto, a tecnologia não muda nada sozinha. A educação, como um todo, movimenta-se dentro do turbilhão da contemporaneidade. Nós, gestores, coordenadores e professores, estamos sentindo isso na pele. A escola não pode mais ser como sempre foi. A intenção de formar cidadãos plenos permanece, mas é preciso caminhar na direção de um ensino mais significativo, contextualizado e inovador, ligado aos problemas que vivemos no dia a dia. A utilização do Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem, como forma de acesso à universidade, é uma realidade para quem gosta e para quem não gosta da avaliação, e terá um papel indutor cada vez mais claro para as práticas pedagógicas do ensino médio.

Há outra questão que se mostra cada vez mais urgente: a atenção que nós, educadores, damos à qualidade do convívio. Alguns preferem focar no bullying, que, realmente, é um tema em evidência. Mas os episódios de violência, sofrimento e humilhação na escola que caracterizam o bullying são sintomas, não o mal em si. A doença é o resultado da pouca eficácia com que os colégios vêm enfrentando as questões ligadas à convivência. Esse é um trabalho que precisa sair rapidamente do campo da retórica e entrar na veia da educação.

Formar cidadãos pode ser bonito de se falar ou escrever no papel, mas exige novas posturas dos gestores e dos professores. A educação para a convivência é, sim, uma prioridade que deve ser levada em conta, pois tem a ver - direta ou indiretamente - com os dois pontos já aventados anteriormente: escolas atentas ao interesse e à nova cultura dos jovens, que estimulam a participação, a colaboração e o diálogo, criam vacinas naturais contra o que se chama indistintamente de “indisciplina”.

Esses três pontos destacados são recorrentes quando se fala em educação. E um dos pontos comuns entre eles é o investimento na formação dos professores, que deve ser cada vez maior, com propostas realistas, aplicadas e contemporâneas. Essa é a chave para 2013. É tempo de “sacudir a poeira” e olhar para o futuro, que já se encontra no presente de todos nós.

Por:Antônio Sérgio Martins de Castro.

domingo

Educação de qualidade é só a sociedade querer...



Séculos se passaram antes que conseguisse abrir escola para todos os jovens
Era uma vez um país quente e muito grande, mas com lastimáveis tradições educativas. Séculos se passaram antes que conseguisse abrir escola para todos os jovens. Mas, quanto mais aumentavam as matrículas, abrindo mais escolas, o número de alunos que ficavam fora aumentava. Foi tão rápido o crescimento de matrículas que, em dez anos quase triplicou, principalmente o Ensino Médio.

 Felizmente, as coisas boas também acontecem e este país conseguiu levar todos à escola. As escolas cresceram proporcionais ao crescimento da clientela suprindo a demanda. E o que é que nenhum Estado deste país fez previsão de número de matrículas de alunos de Ensino Médio, tampouco previsão orçamentária para suprir a demanda. Mas o estranho é que as escolas cresceram não sabemos como e o dinheiro para pagar as contas apareceu. Este país chama-se Brasil.
Era uma vez um país muito frio e pequeno. Há alguns anos o descontentamento da sociedade contra a educação se exacerbou. Pelo que noticiava a imprensa, a sociedade achava inadequada a qualidade da educação oficializada pelo governo. E as queixas da sociedade aumentavam tomando grande espaço na mídia. Mas alguém abre uma publicação da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) em que noticiava os resultados do teste Programa Internacional para Avaliação de Alunos (Pisa) e percebe que a educação naquele país havia obtido o primeiro lugar no mundo (o mesmo teste em que o Brasil obteve o último lugar). Esse país chama-se Finlândia. Mas, pensando bem, o que tem em comum estes dois países? Sim, mostra o poder da sociedade quando embirra que quer alguma coisa e consegue.

Durante muitos anos, faltavam vagas nas escolas brasileiras, sem que isso causasse comoção ou maior embaraço para os políticos e administradores. Mas, com as mudanças tecnológicas na década de 90, os empregos migraram para os mais educados. Obviamente, todos entenderam que era necessário ficar mais tempo na escola. As novas levas de graduados do Ensino Fundamental tornaram-se maior e muitos já formados quiseram voltar a estudar. Políticos e administradores não ousaram deixar que essa grande massa de alunos ficasse sem vaga na escola e o dinheiro apareceu.

A sociedade brasileira aprendeu que a vaga na escola é inegociável. Quem se atreverá a negá-la? Mas, não aprenderam que é crucial uma educação de qualidade, em que se aprende a ler, escrever e pensar. Por isso, ainda não temos qualidade. Somente quando o preço político de oferecer educação de baixa qualidade tornar-se proibitivo é que nossos políticos temerão por suas carreiras e tratarão de melhorá-la.

Sabemos que os políticos têm excelentes radares, farejam de longe o que a sociedade quer. Se a demanda não é para valer, fica tudo nos discursos grandiloquentes. Mas, se a sociedade exige, quer, aí é diferente. Só teremos educação de qualidade quando a sociedade quiser, pois os políticos e administradores que não oferecê-la terão perdas políticas temíveis.