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sábado

A tecnologia com os pés no chão



Em um contexto de transformações tão intensas, ficam no ar algumas grandes tendências que permeiam a educação neste ano. O que irá acontecer? Quais são os temas que mobilizarão a atenção dos educadores? Com uma enorme margem de incertezas, podemos tentar traçar alguns caminhos, que funcionam como sinalizadores do que vem ocorrendo.
Certamente, a tecnologia será um deles. Alguém pode dizer: “Que novidade!”, mas, em certo sentido, realmente há algo de novo. Depois de muito tempo de um evidente descompasso entre tecnologias que avançam, desconectadas das necessidades reais dos professores e de escolas que resistem cegamente a mudanças, há um movimento concreto de aproximação.

A tecnologia coloca os pés no chão, com respostas mais diretas aos problemas reais da educação. Ao mesmo tempo, a difusão de tablets e smartphones acaba por impor às escolas uma nova adaptação aos recursos existentes. Vivemos essa realidade no nosso sistema de ensino, que criou plataformas de educação digital, as quais são, agora, avidamente procuradas e usadas por nossos parceiros. Sim, há novidades, e precisamos estar de olhos e ouvidos bem abertos.

No entanto, a tecnologia não muda nada sozinha. A educação, como um todo, movimenta-se dentro do turbilhão da contemporaneidade. Nós, gestores, coordenadores e professores, estamos sentindo isso na pele. A escola não pode mais ser como sempre foi. A intenção de formar cidadãos plenos permanece, mas é preciso caminhar na direção de um ensino mais significativo, contextualizado e inovador, ligado aos problemas que vivemos no dia a dia. A utilização do Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem, como forma de acesso à universidade, é uma realidade para quem gosta e para quem não gosta da avaliação, e terá um papel indutor cada vez mais claro para as práticas pedagógicas do ensino médio.

Há outra questão que se mostra cada vez mais urgente: a atenção que nós, educadores, damos à qualidade do convívio. Alguns preferem focar no bullying, que, realmente, é um tema em evidência. Mas os episódios de violência, sofrimento e humilhação na escola que caracterizam o bullying são sintomas, não o mal em si. A doença é o resultado da pouca eficácia com que os colégios vêm enfrentando as questões ligadas à convivência. Esse é um trabalho que precisa sair rapidamente do campo da retórica e entrar na veia da educação.

Formar cidadãos pode ser bonito de se falar ou escrever no papel, mas exige novas posturas dos gestores e dos professores. A educação para a convivência é, sim, uma prioridade que deve ser levada em conta, pois tem a ver - direta ou indiretamente - com os dois pontos já aventados anteriormente: escolas atentas ao interesse e à nova cultura dos jovens, que estimulam a participação, a colaboração e o diálogo, criam vacinas naturais contra o que se chama indistintamente de “indisciplina”.

Esses três pontos destacados são recorrentes quando se fala em educação. E um dos pontos comuns entre eles é o investimento na formação dos professores, que deve ser cada vez maior, com propostas realistas, aplicadas e contemporâneas. Essa é a chave para 2013. É tempo de “sacudir a poeira” e olhar para o futuro, que já se encontra no presente de todos nós.

Por:Antônio Sérgio Martins de Castro.

domingo

Educação de qualidade é só a sociedade querer...



Séculos se passaram antes que conseguisse abrir escola para todos os jovens
Era uma vez um país quente e muito grande, mas com lastimáveis tradições educativas. Séculos se passaram antes que conseguisse abrir escola para todos os jovens. Mas, quanto mais aumentavam as matrículas, abrindo mais escolas, o número de alunos que ficavam fora aumentava. Foi tão rápido o crescimento de matrículas que, em dez anos quase triplicou, principalmente o Ensino Médio.

 Felizmente, as coisas boas também acontecem e este país conseguiu levar todos à escola. As escolas cresceram proporcionais ao crescimento da clientela suprindo a demanda. E o que é que nenhum Estado deste país fez previsão de número de matrículas de alunos de Ensino Médio, tampouco previsão orçamentária para suprir a demanda. Mas o estranho é que as escolas cresceram não sabemos como e o dinheiro para pagar as contas apareceu. Este país chama-se Brasil.
Era uma vez um país muito frio e pequeno. Há alguns anos o descontentamento da sociedade contra a educação se exacerbou. Pelo que noticiava a imprensa, a sociedade achava inadequada a qualidade da educação oficializada pelo governo. E as queixas da sociedade aumentavam tomando grande espaço na mídia. Mas alguém abre uma publicação da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) em que noticiava os resultados do teste Programa Internacional para Avaliação de Alunos (Pisa) e percebe que a educação naquele país havia obtido o primeiro lugar no mundo (o mesmo teste em que o Brasil obteve o último lugar). Esse país chama-se Finlândia. Mas, pensando bem, o que tem em comum estes dois países? Sim, mostra o poder da sociedade quando embirra que quer alguma coisa e consegue.

Durante muitos anos, faltavam vagas nas escolas brasileiras, sem que isso causasse comoção ou maior embaraço para os políticos e administradores. Mas, com as mudanças tecnológicas na década de 90, os empregos migraram para os mais educados. Obviamente, todos entenderam que era necessário ficar mais tempo na escola. As novas levas de graduados do Ensino Fundamental tornaram-se maior e muitos já formados quiseram voltar a estudar. Políticos e administradores não ousaram deixar que essa grande massa de alunos ficasse sem vaga na escola e o dinheiro apareceu.

A sociedade brasileira aprendeu que a vaga na escola é inegociável. Quem se atreverá a negá-la? Mas, não aprenderam que é crucial uma educação de qualidade, em que se aprende a ler, escrever e pensar. Por isso, ainda não temos qualidade. Somente quando o preço político de oferecer educação de baixa qualidade tornar-se proibitivo é que nossos políticos temerão por suas carreiras e tratarão de melhorá-la.

Sabemos que os políticos têm excelentes radares, farejam de longe o que a sociedade quer. Se a demanda não é para valer, fica tudo nos discursos grandiloquentes. Mas, se a sociedade exige, quer, aí é diferente. Só teremos educação de qualidade quando a sociedade quiser, pois os políticos e administradores que não oferecê-la terão perdas políticas temíveis.

terça-feira

O Brasil já se consagrou como o país do "jeitinho".



Em alguns momentos chegamos a nos orgulhar bastante dessa característica que seria só nossa, apenas deste país tropical, bonito por natureza e abençoado por Deus. Esse jeitinho se constituiria numa espécie de aditivo tupiniquim para o qual apelamos quando a coisa emperra, não anda ou anda mal e as regras vigentes ajudam pouco. Há quem diga que Walt Disney criou o Zé Carioca, um de seus personagens famosos, justo observando a malandragem do carioca que incorporaria o típico jeitinho nacional.

No auge da sua exitosa carreira o piloto Ayrton Senna, tido como o melhor da história da Fórmula 1, foi analisado, avaliado, dissecado, por vários ângulos por quem desejava encontra explicação para tanto talento. Em dado momento alguém, salvo leve engano um jornalista inglês, disse que o que fazia de Senna um piloto excepcional era o jeitinho brasileiro de guiar o carro e cujo ouvido dialogava eficientemente com sua máquina. Idiossincrasia brasileira nas curvas, nas ultrapassagens, nas marchas o levava ao pódio diante do espanto de alguns concorrentes. É possível algo assim? Não sei, há sociólogos e antropólogos dizendo que sim.

Entretanto, essa capacidade de improvisar, de manifestar um espírito criativo que marcaria a cultura do brasileiro na hora de alcançar determinado beneficio pessoal está revelando também sua faceta perversa. E atrás delas muitos se escondem.

Um grupo de pesquisadores, inclusive estrangeiros, estudou a questão e concluiu que “a relação entre moralidade e jeitinho é especialmente curiosa, pois alguns afirmam que a prática generalizada do jeitinho cria condições para o estabelecimento de um clima de cinismo e delinquência para julgar moralmente as ações dos outros, além de modificar a maneira como atos morais são julgados pelas pessoas”.

Assim, ao mesmo tempo em que esse jeitinho se refere a certa habilidade sutil parar superar determinado problema, contornar obstáculos, ele tem se ligado, com frequência cada vez maior, a comportamentos imorais. A realidade é dura: o jeitinho tem contribuído inclusive para que a corrupção campeie desenfreadamente entre nós. E tem impedido que posturas republicanas se alastrem em todas as esferas de governo com terríveis prejuízos para toda a população.

Vamos pegar o caso da semana passada (segundo a Folha de S.Paulo): “Verbas destinadas a obras públicas pelo líder do PMDB na Câmara, Enrique Eduardo Alves (RN), foram parar na empresa de um assessor do próprio deputado”. Coisa de gênio? Ou coisa de malandro? Pode uma coisa dessas? Não poucos entendidos no assunto destacaram que legalmente não existe buraco no procedimento desse parlamentar, ele seguiu o trâmite estabelecido no parlamento. Certo, é legal essa malandragem, mas moralmente isso é aceitável?

Além do jeitinho (na prática certa mania de inventar desculpas para fazer a coisa errada) nosso cotidiano mostra lista interminável de atitudes que revelam uma moral bastante elástica de nossa parte. Quando listamos o que somos capazes de fazer ficamos quase encabulados para condenar a atitude desse parlamentar. Creio que é interessante refletir a respeito, pois temos incorporados atitudes inadequadas, moralmente condenáveis, com as desculpas mais incríveis. Como por exemplo, ocupar a vaga para o portador de deficiência no estacionamento sob a alegação de que ela estava vazia...e por aí vai....
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sábado

O ponto

 

A relação do aprendizado produtivo e da habilidade de fazer ainda não é possível através de passes de mágica ou pela introdução do conhecimento através de processo cirúrgico.

Afinal, o que é mais importante, a informação ou conhecimento? Talvez, antes de responder esta pergunta, seria oportuno fazer mais perguntas. A informação por si só pode alterar o nosso perfil de habilidades e nos levar a um novo patamar profissional? E o conhecimento?

Há diferenças entre informação e conhecimento? Qual a relação da informação e do conhecimento com a ação do fazer? E como chegamos ao ato de fazer com qualidade, será que precisamos testar aquilo que entendemos que sabemos fazer?

Pois bem, o fato de estarmos vivendo novas formas de ler e escrever oportunizados pelas tecnologias digitais de celulares, tabletes, laptops ou desktops, precisam ser visto como novos jeitos de elaborarmos ou executarmos trabalhos, tanto em nível doméstico, empresarial, como dentro das escolas e universidades. Isto já é uma realidade.

 E dentro desta realidade, creio na urgente necessidade de revisarmos os currículos das escolas e universidades com a inclusão de disciplinas que capacitem os alunos e professores para o uso adequado dessas novas ferramentas.

Por outro lado, ilude-se quem pensa que somente o acesso às novas tecnologias nos remeterá para novos aprendizados produtivos e reconhecidos pela comunidade empresarial ou científica.

Antes ou durante o processo dessa nova relação, é imprescindível, ainda, que passemos pelo aprendizado formal da língua mãe e das demais disciplinas que constam dos currículos das escolas de formação básica e das universidades.

A relação do aprendizado produtivo e da habilidade de fazer ainda não é possível através de passes de mágica ou pela introdução do conhecimento através de processo cirúrgico. É necessário sim, antes que entremos em cálculos mais complexos que saibamos, como pré-requisito, as “quatro operações” de matemática.

Você até pode usar uma calculadora para resolver operações de soma ou divisão, mas isto não o dispensará de fazer o algoritmo lógico (consciente ou inconsciente), que o levará à execução da operação matemática.

Existe uma forma bem simples de testar se temos apenas informação ou informação e conhecimento e mais, se temos a habilidade de realizar alguma coisa. Tudo começa com uma pergunta bem simples: o que você sabe fazer?

Saber fazer tem a sua complexidade intrínseca e, portanto, dependendo daquilo que queremos fazer, precisamos investir tempo, paciência, informação, conhecimento e muita transpiração exercitando o ato de repetir para reter.

Ilude-se, pois, aqueles que acham que somente o fato de “viajarem na internet”, participar de redes sociais ou assistir à televisão lhes habilitará a fazer alguma coisa de útil e produtiva.

E a sabedoria? Bem, esse é um outro ponto.

sexta-feira

O efeito dominó na educação


Alguns acham exagero que, no meu tempo, a alfabetização se dava na primeira série, assim como o aprendizado básico de matemática

Vejo a surpresa nos olhos de meus sobrinhos quando falo que não fiz o "primeiro grau", mas o "primário". Depois disto, veio a "evolução" que desestruturou o nosso ensino básico, capitaneado por técnicos da educação que resolveram tornar mais elásticas as relações entre educador e educando e, até, a forma de cobrança do seu rendimento.

Infelizmente, isto levou a não ser surpresa que, hoje, se afirme que uma criança pode ser alfabetizada até a terceira série, defendida por quem não vê problema que se utilize três anos de educação para, praticamente, nada, pois a não alfabetização respinga na capacidade de aprendizado de todas as demais áreas.

Alguns acham exagero que, no meu tempo, a alfabetização se dava na primeira série, assim como o aprendizado básico de matemática. E se rodava, isto é, quando não se alcançava os índices necessários, repetia-se o ano. Por mais que se pense ao contrário, ninguém ficou traumatizado porque saiu de um primeiro ano reforçado ou, se repetiu, criou bases suficientes para enfrentar a continuidade do aprendizado.

Recentemente, uma educadora infantil de Caxias do Sul, aposentada, expressou a minha indignação: disse que não conseguia entender como se flexibilizava algo que é básico e necessário, subtraindo uma base fundamental para que o processo de aprendizado possa se estruturar. Até então, pensei, mas não me posicionei. Agora, é hora de repormos no lugar as mazelas que estamos enfrentando porque, desestruturado o básico, nossos problemas vão se avolumando como naquela brincadeira com pedras de dominó que, ao derrubar uma, o efeito cascata faz uma sequência de quedas que não pode ser evitada!

Comecei a conversar a respeito e do baú das lembranças foram sendo resgatadas muitas formas de se solidificar o processo: meu pai nos cobrava a tabuada enquanto trabalhava em seu armazém e não tínhamos folga enquanto as continhas não estavam na ponta da língua; uma professora usava da disputa natural entre meninas e meninos para fazer gincanas ao final de cada aula, com recompensas que iam de pequenos presentes ao prazer de superar o sexo oposto! Hoje, ao invés de incentivarmos a criatividade dos professores em sala de aula temos "técnicos" com fórmulas indiscutivelmente bem traçadas e dignas de serem apresentadas em simpósios internacionais, mas com os resultados pífios que vemos para a educação.


 

terça-feira

Evolução pedagógica e tecnológica: chegou a hora de mudar

A tecnologia impõe-se como um recurso incontornável na educação. No entanto, e apesar de uma geração completa de gestores escolares, professores, e até alunos e pais verem a tecnologia como a solução final para os problemas do insucesso escolar, são necessárias algumas cautelas. As oportunidades e a vontade de mudança fizeram com que se passasse do quadro negro para o projetor de transparências, do videoprojetor para a lousa interativa. No entanto, a lógica tradicional e mecanizada de transmissão passiva de conhecimento prevaleceu na maior parte das nossas escolas.


A análise da realidade escolar revela que a metodologia associada aos processos de ensino/aprendizagem manteve-se praticamente inalterada, fazendo com que a tecnologia seja vista agora aos olhos de muitos pais, professores e diretores como inútil, pouco rentável ou, por vezes, prejudicial.

Com tantos investimentos despendidos em tecnologia educacional por todo o mundo, exigem-se resultados. Resultados visíveis e expressivos! O que faltou, então? Metodologia? Sem dúvida! Mas, existirá falta de pedagogos? Certamente, não. No entanto, durante muito tempo a integração da tecnologia esteve desligada dos princípios pedagógicos necessários à sua utilização efetiva, ligado à ideia de que a tecnologia era suficiente para a mudança de paradigma educacional.

Gradualmente tem-se defendido a importância de uma ação consciente e sustentada no uso da tecnologia. Só desta forma é possível dar uso ao potencial da tecnologia no apoio à aprendizagem significativa, experiencial, colaborativa e multifacetada. Uma educação paralelamente ativa e interativa que promove tanto a autoaprendizagem (com a resolução de problemas e do acesso a múltiplos canais de informação e conhecimento) como a coaprendizagem (construção de conhecimento partilhado).

Consideramos que o professor continua sendo o elemento-chave nos processos de ensino-aprendizagem, tendo agora à sua disposição o conhecimento teórico e os recursos pedagógicos capazes de revolucionar a educação. Se, até hoje, numa educação orientada aos princípios da homogeneização, essas teorias não tinham aplicação, por implicarem invariavelmente a quebra do modelo de professor transmissor e aluno passivo, agora o caminho é bem diferente.

A geração atual dispõe do conhecimento teórico e das aplicações tecnológicas que permitem otimizar os processos em função das estratégias metodológicas mais adequadas, das especificidades individuais e contextuais, dos estilos e ritmos de aprendizagem.

A construção crítica e sustentada do conhecimento que se deseja promover na escola torna-se um objetivo cada vez mais concreto ao aproximar-se a sala de aula da realidade, ao favorecer a experimentação e aplicação prática dos conceitos e saberes, ao estimular a observação, a análise e a simulação de fenômenos.

O momento é realmente animador: temos as teorias pedagógicas que nos ensinam a trabalhar de forma efetiva e possuímos a tecnologia que nos permite implementá-las. Falta apenas o último passo: trabalhar e recolher os resultados de um ensino inovador e de qualidade, numa escola revolucionada!

Por: Fernanda Nogueira.

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quinta-feira

Intelectualidade Mórbida

Tenho cá minhas dúvidas se a medicina já catalogou essa patologia que chamarei de intelectualidade mórbida. Porém, há quem apresente sintomas do distúrbio, como arrogância crônica, mau humor e desprezo pela opinião alheia. Segue uma luz sobre o tema.


Intelectual mórbido gosta de ler. Óbvio, quem não gosta? Mal está com um livro nas mãos, já está pensando no próximo. Contudo, acumula conhecimento em desproporção com sua capacidade de compartilhar, o que faz dele alguém cada vez mais pesado. Vira o sabe-tudo e, em casos agudos, preconceituoso. O que era para ser libertador torna-se prisão.

A intelectualidade mórbida também faz muito mal ao coração. Fica difícil amar quando se está intoxicado pela complexidade humana. Quanto mais dela, menos espaço sobra para fluir a inocência dos sentimentos, a pureza das intenções. Isso faz crescer a pressão, exigindo do outro muito esforço para conquistar empatia, desejo, compaixão. Intelectual mórbido não se doa. Compete, desconfia, é impaciente. Na balança, o desencanto.

O SUS não ampara em seus procedimentos quem sofre de intelectualidade mórbida. Nem adiantaria, mesmo. Intelectual, mórbido ou não, só procura o serviço público de saúde no desespero – como acreditar nesse tipo de gestão? Descrença, aliás, é outra consequência da hipertrofia patológica da razão. Se um dia a pessoa teve alguma fé, religiosa ou na humanidade, ela foi sufocada por grossas camadas de pragmatismo.

Um aviso: em nenhum caso é recomendada cirurgia de redução de cérebro. A cura para esse mal passa por educação alimentar e mudança de hábitos. Primeiro, mesmo contra a vontade, há que se consumir alguma dose de frivolidades. A arte, na superfície, contém fibras: alimenta pouco, mas ajuda na formação do bolo (evito aqui a palavra que me veio). Paralelamente, mexer-se. Ir até o ponto de vista do outro, próximo ou distante, emagrece o ego enquanto tonifica a humildade.

Previna-se da intelectualidade mórbida. A inteligência bela e saudável é leve, flexível, aeróbica. Há exemplos assim para serem seguidos dentro e fora da Academia. E, aproveitando a abertura da Feira do Livro, comecemos com doces caminhadas na Marechal Floriano.

Reflita sobe isso...

por Rubem Penz.



sábado

Você é radical ou moderado?

Engana-se quem imagina que é fácil, confortável ou ao menos indolor ser alguém moderado. Essa é uma opinião bastante comum entre os radicais:


– Veja, ele não se compromete, não luta. É um frouxo!

Para os que vivem nos extremos, todo moderado é covarde. Fraco, volúvel, inconfiável. Jamais pegará em armas. Seguirá as normas estabelecidas, obedecerá as leis, recuará diante do confronto. Eu, reconhecendo-me um moderado (perdão, bravos), ouso discordar e vou defender a classe. Há muito esforço para habitar o meio termo e conviver em harmonia com os extremistas. Serenidade demanda paciência. Suavidade é a mãe de todas as forças.

Puxando a brasa para cima do muro, o moderado é, na verdade, um corajoso: tem peito suficiente para admitir que pode estar errado e, por isso, se dispõe a ouvir o outro. Quanta bravura demanda essa atitude. Vivemos num mundo em que o homem se acostumou a erguer paredes de proteção, e um delas é a das certezas. Colocar em dúvida suas convicções diante de um argumento plausível é implodir a barreira para, assim, expor-se. Contemporizar.

Também é comum confundir a política de não agressão com fraqueza. Cordialidade nunca foi sinônimo de subserviência. Ninguém mais é santo para oferecer a outra face diante da bofetada: basta estar atento aos sinais que precedem a violência e agir antes, de preferência. Ao menos em tempo de evitá-la. Assim como negar um cigarro é mais fácil para quem não fuma, impedir a desavença antes de o mal estar ser instalado sempre funciona.

Na maior parte do tempo, combate quem se sente ameaçado. Isto é, agride quem teme por algo como, por exemplo, parecer diminuído diante do outro – diante da altivez de quem prova ser capaz de abrir-se ao diálogo sem erguer a voz. É quando o moderado exercita sua capacidade de escutar, compreender, manter-se acessível. Todo radical, não importa a causa, ouve apenas a si mesmo. E, ainda assim, ouve mal, pois vive acusando os outros de tomar atitudes iguais as dele.

Claro que o mundo precisa da ação dos radicais. Neles está o estopim de grandes e importantes mudanças na sociedade. Por vezes, imolam-se pela bovina coletividade. Rompem paradigmas e viram a página da História. Porém, para cada dia de conflito, há mil outros de negociações. Assim, salto em defesa dos que comandam a paz.

Vida longa aos moderados, homens e mulheres de muito valor e que raramente ganham estátua na praça.

Por: Rubem Penz.

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sexta-feira

A educação precisa de respostas

A campanha institucional do Grupo RBS, lançada no final do mês de agosto, é, sem dúvida, uma forma de fazer com que a sociedade pense e tente entender porque a educação em nosso Estado tem alcançado índices tão baixos nas avaliações nacionais.

Diz-se que não há intenção de apontar culpados, porém, todos nós sabemos que sempre é apontado o mesmo “culpado”: o professor. Os culpados existem. E são vários: o sistema educacional ultrapassado e sucateado, o professor desmotivado e de mãos atadas frente à realidade das escolas, os alunos que acham qualquer coisa mais interessante que a sala de aula, os pais que deixam seus filhos (e a sua educação) aos cuidados dos professores, sem ao menos terem a preocupação de acompanhar o processo de aprendizado e o rendimento desses alunos.

A verdade é uma só: a educação vai de mal a pior porque o sistema força o professor a aprovar o aluno, independente do fato de ele ter ou não condições para isso.

 É preciso que se faça tudo que for possível (e às vezes até o impossível) para que o aluno não reprove, pois um número alto de reprovados pode gerar uma série de problemas à escola e ao professor.

Quem é quer arrumar problemas, não é mesmo? Em breve não haverá mais reprovação escolar, é apenas uma questão de tempo.

Hoje em dia, não se reprova o aluno nos três primeiros anos do ensino fundamental. Óbvio que a maioria chega aos anos seguintes sabendo pouco, ou quase nada.

 Some-se a esse fato a facilitação que acontece nos anos finais, só resta uma conclusão: os índices obtidos nas avaliações futuras só tendem a piorar.

Prof. Roberton Alexandre Crexi dos Reis.

Aprenda a se controlar e terá o mundo aos seus pés

A maioria de nós busca sucesso, prestígio, liderança e felicidade. Passamos boa parte de nossa vida nos preparando para vencer em nossas áreas de atuação, sem a garantia de que o sucesso virá.

Vencer na carreira profissional exige conhecimento adequado, desenvolvimento de habilidade na área que escolhemos para atuar e atitude para colocar em prática os conhecimentos adquiridos ao longo da jornada. No entanto, de nada adiantará você ter uma ótima formação e deter conhecimentos atualizados, se não for capaz de levantar cedo e encarar com seriedade uma longa e desafiadora jornada de trabalho.

 Ainda que você se torne mestre nas três áreas retroabordadas, terá que superar um último desafio, sem o qual você não poderá vencer e se manter no topo pelo tempo que desejar. Estamos falando da capacidade de dominar o nosso emocional.

 Ao construir uma carreira de sucesso, não serão poucas as negociações e os desentendimentos que teremos pelo caminho. Quando a situação for desafiadora ou parecer fugir ao nosso controle, normalmente reagimos com raiva e intolerância.

 Muitas vezes, mais tarde, lamentamos o nosso comportamento, nos arrependemos e juramos que nunca mais deixaremos o salgo assim nos dominar novamente. Então, resta sair a campo na tentativa de reparar os estragos criados. Tudo isso, gera descontentamento, drena as nossas energias e nos distância do tão sonhado sucesso.

Então, da próxima vez que você se deparar com situação de conflito e sentir raiva crescente, lembre-se que ninguém poderá deixá-lo irritado ou emocionalmente abalado sem o seu consentimento.

Além disso, quando você dá demonstração de equilíbrio diante de situações difíceis, você conquista admiradores. Afinal de contas, aquele que aprende a gerir a si mesmo, se tornará o indivíduo que será escolhido para gerir os outros.

Logo, antes de querer ser um grande líder é preciso primeiro aprender a ser um bom liderado, pois quando você age sob completo controle, você é o seu próprio patrão.

Por: Evaldo Costa.

 Reflita sobre isso!!!

terça-feira

O papel dos Observatórios Sociais


Para tratar, reportar, discutir e condenar diariamente o assunto em páginas de jornais e revistas, milhões de árvores são cortadas, toneladas de papel são recicladas. Para assistir e ouvir as abordagens mais diversas do tema, uma imensidade de kilowatts é despendida. Não passa um santo dia sem que algo novo surja sobre um dos mais velhos crimes e desmandos que assolam a humanidade. 

Estamos falando da corrupção e da malversação dos recursos públicos. São revelados, denunciados e noticiados a cada momento desvios de dinheiro da saúde pública, da educação, da segurança. Enfim, valores da sociedade, guardados nas burras oficiais que se esvaem pelo ralo da surrupiação, levada a efeito por aves de rapina, públicas e privadas. Escândalos do gênero motivaram o surgimento, em 2006, do Observatório Social de Maringá, com o objetivo de instrumentalizar a sociedade local na busca da transparência e do zelo na gestão do dinheiro da municipalidade. 

 O pioneirismo da iniciativa deu sequência a outras tantas iniciativas oficiais e extraoficiais no sentido de sensibilizar as comunidades para exercerem efetivamente o controle social, uma das ferramentas da chamada accountability (responsabilidade) democrática. Como sempre se inferiu, a sociedade ou um segmento de usuários de serviços públicos, se organizado de alguma forma, pode interferir decisivamente nesta atividade que, se bem exercida, virá com certeza, em benefícios de todos os concidadãos. Pois o movimento dos Observatórios Sociais, embora ainda embrionário, cresceu bastante. 

Foi constituído o Observatório Social do Brasil (OSB) que passou a instrumentalizar as iniciativas municipais. Formou-se uma rede. E a Rede OSB já marca presença em mais de 60 cidades de 12 estados. Profissionais dos mais diversos setores, como advogados, magistrados, contadores, economistas, servidores públicos das diversas esferas de governo, empresários, estudantes e aposentados, com um único foco e sem viés político-partidário, se uniram, sob os auspícios de suas entidades de classe, na maior parte das vezes, e passaram a trabalhar para dar transparência às contas públicas nos municípios brasileiros.

 Orientações iniciais como os preceitos básicos da Educação Fiscal, da Lei de Responsabilidade Fiscal, da legislação sobre licitações públicas, nivelam os voluntários para uma atividade árdua que faz com que se debrucem sobre editais, processos, mercadorias e contratos, conferindo a legalidade, a licitude e a concretude plena dos negócios que envolvem a aquisição, com recursos públicos, de produtos e serviços. 

 Hoje, os Observatórios já evoluíram até para a construção de Indicadores da Gestão Pública, embasados na execução orçamentária e nos estágios sociais do município, permitindo o alinhamento e a comparação com outras cidades de mesmo porte. E periodicamente, aonde já se consolidou, prestam contas à sociedade. Apesar de não terem poder coercitivo como os Tribunais de Contas ou as Controladorias oficiais, assumiram, os Observatórios, real importância como espaço para o exercício da cidadania, pela condição democrática e apartidária e sempre contribuindo, de forma cada vez mais eficaz, para a melhoria da gestão pública. 

 Há ainda carências de recursos materiais e humanos para o maior desenvolvimento e implementação mais ampla destes importantes organismos não-governamentais de alavancagem da transparência nas contas dos governos. Ainda clamam por financiamento, parcerias e voluntários estas cidadelas da cidadania. Mas, com convicção, devem ser, a cada momento, mais e mais incentivadas, para construirmos, nesta eterna vigilância, nesta constante labuta, em comunidades melhor estruturadas e serviços públicos de melhor qualidade nesta sociedade ainda tão desigual. 

Fonte: Vilson Antonio Romero.

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sexta-feira

Família ausente. Educação em crise


Hannah Arendt, há meio século, previu que a educação seria atingida pela crise da família contemporânea. Atualmente, testemunhamos os efeitos gerados a partir da dinâmica instalada na família, cujas relações são marcadas pela horizontalidade, decorrente do declínio do poder patriarcal, também associado à emancipação da mulher e à sua entrada no mercado de trabalho.

 Esses fatores modificaram a maneira de educar e a sintonia que existia, em especial, entre família e escola. Dentre essas mudanças, destaca-se a dificuldade dos pais de estabelecer e sustentar os limites, o que tem resultado em sintomas psíquicos e sociais evidenciados na incapacidade para lidar com a diferença, respeitar o outro e compartilhar a vida em sociedade.

Anteriormente, família e escola, com seus diferentes papéis, educavam de modo complementar. O declínio da autoridade paterna colocou em questão a hierarquia e, portanto, a legitimidade do lugar daqueles que representam a autoridade como pais, professores e gestores. Apagada essa referência simbólica, passaram a realçar a individualidade, as celebridades, os imperativos do mercado, as exigências de sucesso atrelado ao consumo de bens materiais e às “obrigatórias” jornadas excessivas de trabalho.

 Neste cenário, os pais, na tentativa de atender a esses apelos, tornam-se mais ausentes e portadores do sentimento de culpa que gera a compulsão a compensar os filhos, inclusive, esquivando-se de assumir a diferença da sua posição e do seu poder.

Consequentemente, a noção dos limites que devem valer para todos na sociedade se diluíram nos pactos privados, nas negociações e modos particulares que cada família escolhe e adota para nortear a convivência em geral. Essa é uma das razões pelas quais a escola é convocada a impossível tarefa de educar sem se contrapor às referências de cada aluno, de cada família ou, ao contrário, educar assumindo a responsabilidade sozinha.

 Tarefa impossível porque educar pressupõe a preservação da diferença de lugares e das gerações, a transmissão do respeito à história e à tradição, o que difere radicalmente da concepção que cultua a simetria das relações entre parceiros.

Segundo Hannah Arendt “a educação não pode desprezar a autoridade, nem a tradição, e deve mesmo assim exercer-se num mundo que não está estruturado pela autoridade, nem reservado para a tradição“.

Cabe a família e a escola não abdicarem da função de humanizar seus filhos e alunos, o que implica em referendar a noção da Lei que vale para todos, os valores éticos e morais que balizam os limites, as impossibilidades, a capacidade para aceitar e lidar com frustrações, perdas e diferenças.

Quando as referências simbólicas falham, a violência surge.

Estamos nos defrontando com os efeitos da falta de anteparo simbólico na família, na vida social e, evidentemente, na escola. No âmbito escolar, crianças e adolescentes intolerantes à frustração e às diferenças, tomam como alvos colegas e educadores.

Os educadores e gestores escolares ressentem-se diante do impasse: não fazer valer a noção de limites para todos, mas se adequar ao código que cada família apresenta e exige que seja validado na vida social. Impasse e, em muitas instituições, crise.

É chegada a hora de considerar a necessidade do reposicionamento e da aliança entre pais, professores e educadores. É hora de repensar os mitos que confundem e atrapalham a vida em comunidade, como por exemplo, os equívocos existentes entre liberdade e falta de limites; exercício da autoridade e autoritarismo; proximidade e permissividade; democracia e falta de respeito...

Impasses e crises abrem a vertente das novas direções. Não estamos precisando mudar o rumo?

Por: Por Sílvia Gusmão

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